Não é incomum um filósofo refletir sobre sua própria existência. Na verdade essa é sua atividade diária. Uma busca incessante sobre os porquês que norteiam o fazer filosófico. Ainda mais sobre si mesmo.

Aqui lembramos a máxima socrática: “Conheça-te a ti mesmo” e, também, um pouco da etimologia da palavra “reflexão” que do Latim RE (outra vez, novamente) e FLECTERE (dobrar), veja fonte. Assim, temos que o ato de refletir é um “dobrar novamente”, ou “redobrar”. Agora, como está relacionado à máxima socrática, é um redobrar-se sobre si mesmo, que nos remete a compreender que reflexão é um olhar para dentro de nós mesmos na busca da autocompreensão!

Enfim, não querendo mais delongas e parecer um filochato, é trabalho de todo filósofo a reflexão. A reflexão é, muito mais que um trabalho, é o estilo de vida do filósofo. De modo que, é na busca por razões àquilo que está diante de si que vive o filósofo, pois o que está diante de si o espanta, lembrando aqui o bom e velho Aristóteles que em seu livro Metafísica diz que a filosofia surge do espanto do homem diante do mundo. E o que mais espanta ao homem do pensar, ao filósofo por natureza, que sua própria existência? Dentre as várias coisas que o mundo lhe apresenta, sua própria vida é motivo de profundas reflexões.

Já tem um bom tempo que cheguei à compreensão, não fechada em si mesma, de que a vida não tem sentido algum. A não ser o sentido que damos a ela. Isso é profundo e, ao mesmo tempo, perigoso. Afinal se coloco o sentido de minha vida em algo que, certamente, irá me frustrar corro sério risco de vir a dar cabo da mesma, afinal o que lhe dava sentido não correspondeu e, ao perder o sentido da vida, que mais nos resta?

Entretanto ao compreender que o sentido da vida é aquele que dou a ela, também sei que estou no comando. Que posso, pura e simplesmente mudar as coisas de minha vida, pois a razão de ser delas sou eu mesmo.

Essa é uma questão complicada para aqueles que entendem que o sentido da vida não pode ser dado de forma autônoma, mas que deve ser dado de forma heterônoma, ou seja, a sua razão de ser vem de fora de si e não de si mesmo. Pois, como pode ele trocar a razão de ser de sua vida se não foi ele mesmo que a deu? Ao contrário, ela vem de fora!! É determinada de fora e, portanto, não há como mudá-la.

Enfim, isso tudo nos traz de volta à reflexão sobre a vida. Na verdade, traz-me de volta à reflexão que faço sobre minha própria vida, minha própria existência. Tenho certeza de que estou caminhando em boa direção. Tenho algumas razões que dão sentido à minha vida. Não são razões eternas e firmes como rocha, mas ao mesmo tempo sei que são as minhas razões, pois fui eu quem as assim o fez.

Primeiramente, meu amor. O amor sublime e irrestrito que tenho por Leila e que sei que é correspondido. São onze anos de convivência e de construção de vida em comum. O que fortalece ainda mais meu caminhar e sei que fortalece o dela também.

Em segundo lugar minha carreira. O valor que dou ao trabalho que realizo como professor e pesquisador. Não há como voltar atrás. Saí da caverna e sei que se voltar (e tenho que voltar) corro o risco de ser assassinado por meus iguais (obviamente aqui estou usando a metáfora do Mito da Caverna platônico!!), pois já não sou e nem serei mais compreendido, pois meus olhos buscam contemplar a verdade, o saber e aos que ainda estão na caverna isso é um ultraje, uma afronta. Contudo, sigo tranquilo, pois minha carreira terá bons frutos, pois sei que por intermédio dela alguns conquistarão a liberdade da caverna também!

Mas, é aqui que se pauta o mais terrível dos paradoxos!! Contemplar o conhecimento, estar livre dos grilhões e, consequentemente, da caverna é profundamente angustiante, pois mesmo no escuro da caverna contemplamos aqueles que estão iludidos pelas sobras do conhecimento, acreditando terem o conhecimento verdadeiro. E como isso é profundamente angustiante. A angustia se dá pois, somos ignorados e rechaçados por tentar levar a liberdade àqueles que estão na caverna. Temos nossos apelos à reflexão rechaçados e isso fere profundamente.

Mas, ao final, podemos dizer junto a milhares de outros professores e pesquisadores que a vida valeu a pena. Enfrentamos o combate à ignorância e a todas as mazelas que ela provoca e seguimos confiantes, assim como Kant, de que em nossa pequena estada sobre essa existência, contribuímos para a emancipação da humanidade e que o reino dos fins, tão distantes quando nascemos, estará um pouquinho mais perto quando deixarmos de existir!

Sempre é necessário relembrar que a busca por justiça passa, necessariamente, pela indignação e denúncia da injustiça que acontecem a nossa volta. Denunciar a injustiça é viver em desacordo com as estruturas sócio-política-econômicas de seu tempo.

Nossa sociedade está profundamente marcada pelo domínio externo do hemisfério norte. Vivemos em um modelo neo-liberal imposto sem possibilidades de libertar-nos. Segundo Darcy Ribeiro para compreendermos esta relação de dominação devemos levar em consideração quatro principais tensões: 1) as disputas entre as potências imperialistas industriais; 2) a oposição entre os povos atrasados e seus exploradores; 3) o antagonismo entre o campo capitalista e o socialista e 4) as tensões inter-socialistas. Estas tensões, foram estabelecidas por Darcy Ribeiro no início dos anos 70, quando ainda existia o socialismo soviético, mas não podemos deixar de ver como são atuais, mesmo entendendo que sem o socialismo soviético as tensões se reduzam às duas primeiras.

Continuar lendo