A Experiência Religiosa: Uma experiência complexa e multiforme

Lendo o capítulo sobre experiência religiosa no texto “ÁVLIA, A. Para Conhecer a Psicologia da Religião. São Paulo: Loyola, 2007”, fui impelido a escrever sobre alguns apontamentos que estou a considerar.

Primeiro, a interessante e profundamente intrigante descrição dessa experiência humana. Ávila nos leva à compreensão de que existe uma experiência do inenarrável, do inefável, i. e., do indizível e, portanto de algo que não podemos dar vazão pela racionalidade e que, em muitos casos, essa experiência é interpretada (dentro do possível) como a experiência do transcendente ou do sagrado.

Diante disso, o autor se coloca duas questões, a primeira é se essas experiências, que identificamos ou interpretamos como sendo religiosas possuem um núcleo comum ou se, ao contrário, cada experiência é uma experiência distinta e portanto não possui nada em comum com qualquer outra experiência a não ser a semelhança de ser a experiência do indizível. Em outras palavras existe Religião ou Religiões?

A segunda pergunta que o autor se propõe é se existe, e existindo quais seriam, os critérios de para uma possível caracterização da experiência religiosa.

Para responder à primeira o autor se coloca diante de duas possibilidades, a primeira é de um centro comum que fosse característico da experiência interpretada como religiosa, apesar das distintas formas em que essas experiências são pautadas em suas interpretações.

Por outro lado, o autor apresenta a “teoria da diversidade” que tem como tese a multifacetada realidade da experiência religiosa que impediria, assim, que esta tivesse um núcleo comum que as defina como realidade única e universal.

Óbvio que do ponto de vista da ciência seria muito útil se houvesse um núcleo comum, pois facilitaria o trabalho do pesquisador em analisar as diversas experiências e traçar qual seria, então, esse núcleo comum para compreensão do fenômeno da experiência humana interpretada como religiosa.

Por outro lado, para o próprio sujeito religioso isso seria impensável, pois é colocar sua experiência religiosa no mesmo nível de outros que professam uma religião totalmente distinta de dele e, por vezes, antípoda desta.

Assim, fica o dilema sem uma tomada de posição pelo autor do texto: as diversas experiências humanas interpretadas como religiosas possuem meras distinções de forma ou são essencialmente distintas?

Quanto à segunda pergunta, ou seja, sobre a existência de critérios para a caracterização da experiência religiosa, o autor assume a proposta de Söderblom e diz termos dois critérios: a religião profética e a religião mística.

A religião profética tem as seguintes características:

  • Compreendem deus de forma predominantemente paterna;
  • Divindade vivida como fonte de força para enfrentar ação construtora do mundo;
  • A religião é vivida por meio das categorias do chamado e da missão;
  • É uma experiência nem sempre desejada, sentida como peso que leva à angústia e ao desejo de fuga (Jonas – Jesus no Getsêmani)
  • Quando maduras e sadias trazem compreensão de um mundo bom, um lugar de encontro e fraternidade e a missão como expressão da vivência religiosa, de um fogo que arde dentro do indivíduo.

Enquanto que a religião mística possui as seguintes características:

  • Caracterizada por um desejo de comunhão com o divino;
  • Caracterizada, segundo Jung, como uma volta ao interior do próprio indivíduo;
  • Possui uma compreensão materna, afetiva e feminina de deus;
  • O desejo tem papel primordial, em detrimento à razão e à volição;
  • O universo é percebido como uma realidade boa e bela, com a qual o indivíduo sente-se em comunhão.

Apesar das distinções, não podem ser tomadas como duas realidades distintas e antagônicas, ao contrário, devem ser compreendidas como formas complementares da vivência da experiência religiosa.

Diante dessas questões e dos desdobramentos que o autor se propõe, deixa claro que o que ele quer é apresentar a possibilidade de refletirmos sobre a localização na neuroanatomia funcional do cérebro. Para isso, passa então para uma análise das bases biológicas das experiências religiosas.

Destaca os grandes avanços que as neurociências alcançaram nos últimos anos, principalmente no que concerne à lateralidade cerebral e às distintas e especializadas funções dos dois hemisférios cerebrais, particularmente o direito, possibilitaram um estudo sobre a base biológica da religiosidade.

Assim, as distinções apresentam que o hemisfério esquerdo é responsável por atividades racionais, habilidades lógico-matemáticas, linguagem etc. Enquanto que o hemisfério direito é responsável pela capacidade visual-espacial, habilidade musical, resposta emocional, síntese perceptiva etc. Apesar das distinções em seus funcionamentos, ambos funcionam de modo relacionado e harmonioso.

Diante de tanta especialização, os pesquisadores buscaram localizar em que região cerebral poderia ocorrer as experiências religiosas e concordam entre si que é provável que esta encontra-se no hemisfério direito do cérebro, mais especificamente no lobo temporal direito.

Para ilustrar sua apresentação, o autor recorre à Jaynes (1978) com a tese de que os dois hemisférios, num momento longínquo da história evolutiva da humanidade, funcionavam independentemente um do outro, e que os indivíduos, por falta dessa interconexão, interpretavam, com o hemisfério esquerdo, as vozes e visões que tinham por conta do hemisfério direito como advindas de divindades e agiam seguindo essas vozes ou visões.

Justamente pelo fato do hemisfério esquerdo não ficar passivo diante da atividade isolada do hemisfério direito, procurava articular e interpretar o que vinha da outra mente como atividade de divindades transcendentes. E, diante dessa dicotomia conflituosa, teríamos de um lado o inefável do sagrado proposto pelo hemisfério direito e de outro o esforço por dar significação articulando racionalmente o significado dessa experiência.

Jaynes levaria essa sua tese às últimas consequências dizendo que a evolução levou à quase desaparição dessa dupla consciência e, assim, ao silenciar dos deuses dando origem à consciência racional moderna. Bem, podemos dizer que há controvérsias, mesmo que ainda no nível da especulação, pois se isso fosse realmente assim hoje não haveriam mais religiões e, muito menos experiências humanas que abrissem a possibilidade de as interpretar como religiosas.

Nosso autor, então, vai ressaltar a falta de comprovação empírica e que essa proposta de Jaynes e puramente especulativa, mas que demonstra a busca e o esforço criativo para relacionar a experiência religiosa à neurofisiologia e à estrutura anatômica do cérebro. Mas reduz as experiências humanas interpretadas como religiosas à neurofisiologia funcional do cérebro.

Mas, não podemos deixar de ressaltar a importância que o hemisfério direito, tido por não-racional, devido às especificidades de suas funções, para o total desenvolvimento humano. Que o desenvolvimento harmonioso entre ambos os hemisférios ajuda a diminuir o desafortunado e, muitas vezes, destrutivo desenvolvimento exclusivo de um ou de outro.

De modo que, fica a questão de como esses conhecimentos podem auxiliar na compreensão da experiência humana interpretada como religiosa. Que esta não pode ser reduzida a apenas uma emoção, pois é complexa e envolve a totalidade do sujeito e, provavelmente, as distintas atividades do cérebro.

O autor, então, apresenta as pesquisas feitas que localizaram a experiência humana interpretada como religiosa no lobo temporal direito. Destacamos, aqui, as pesquisas de Persinger, mas que autores como Bear e Fedio chegaram a resultados diferentes, fazendo que ainda seja prematura falar de uma inclinação religiosa do lobo temporal.

Devemos lembrar que o conhecimento sobre o cérebro e seus processos ainda é muito limitado, por isso temos que ter cautela ao generalizar as conclusões. Apesar dos grandes avanços no conhecimento do cérebro ainda é um mistério a relação mente-cérebro e um perigo exagerar no reducionismo da consciência à atividade neuronal.

P.S.: Lembrando que é uma parcial do livro, só uma seção de capítulo e que exponho minha leitura do mesmo e não algo conclusivo e que está hermeticamente fechado.

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