Construtivismo, uma proposta incompreendida

A proposta construtivista, baseada na Epistemologia Genética de Jean Piaget, não vê a linguagem como a grande reveladora da Lógica e, consequentemente, da Inteligência. Mas, a partir das pesquisas e análises do comportamento infantil, feitas por Piaget, permitiram-no constatar a existência, não consciente para a criança, de uma estrutura lógica subjacente às suas ações, cujo desenvolvimento culminará na estrutura, propriamente dita, do pensamento e da linguagem.
A ação passa a ocupar, então, o centro das pesquisas e análises de Piaget, que a considera como fundamento da inteligência. É devido à importância da ação na constituição das estruturas necessárias ao conhecimento, que o Construtivismo entende ser relevante a compreensão da ação e suas relações com o processo de aquisição do conhecimento.

Para entendermos essa importância da ação, exploraremos, neste artigo, as noções da Epistemologia Genética que fundamentam a ação, afinal desde o nascimento há conduta, no sentido da ação total do indivíduo, e não somente um colocar em jogo automatismos particulares. Assim, fazemos por entender que a ação, no Construtivismo, implica o conhecimento não como cópia do real, mas, sim, num agir sobre o próprio real, transformando-o. De tal forma que exprime o fato de todo conhecimento estar ligado a uma ação e que conhecer um objeto ou fenômeno é utilizá-los, assimilando-os aos esquemas de ação do sujeito.

Piaget nos diz que a inteligência é adaptação, ou seja, é a capacidade do sujeito assimilar novos dados do meio que resulta em ajustamentos da própria inteligência, modificando-a para assimilar esses novos dados. Nesse sentido, dizemos que a adaptação intelectual, como qualquer outra, é um equilibrar-se progressivamente entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar.

A ideia de que a inteligência é adaptação nos permite considerar a existência de uma continuidade entre os processos biológicos de morfogênese (compreendido como a formação e desenvolvimento do organismo do zigoto à fase adulta) e adaptação ao meio na construção das estruturas necessárias ao conhecimento, o que, corresponde à compreensão de que a inteligência não é algo que surge abruptamente, como uma estrutura toda montada e radicalmente distinta das antecessoras, num momento determinado do desenvolvimento humano, particularmente com o surgimento da linguagem.

Mas é justamente o contrário, ou seja, a inteligência é uma construção gradativa a partir das estruturas biológicas hereditárias.

O sujeito ao nascer traz consigo a estrutura biológica hereditária que permite coordenar seus movimentos e, assim, interagir com o mundo. Essa estrutura biológica hereditária se manifesta nas atividades reflexas. A atividade reflexa não resulta de um simples mecanismo que se põem a funcionar como uma máquina, para repousar nos intervalos, mas num sistema complexo com uma história de vida, de modo que cada episódio depende dos antecedentes e condicionam os seguintes numa evolução orgânica. Assim, o exercício dessa atividade reflexa, desde muito cedo, dá lugar a uma sistematização que ultrapassa seu aparente automatismo.

A acomodação da atividade reflexa tem uma característica fundamental: o contato com o objeto modifica a atividade, mesmo que essa atividade esteja hereditariamente orientada para tal contato, esse é necessário para a própria consolidação da atividade. A modificação do reflexo promovida pelo contato com o objeto é complexa, pois tal contato não somente altera a estrutura para que esse objeto possa ser assimilado pelo reflexo, como também é uma coordenação da atividade reflexa.

Simultaneamente à acomodação da atividade reflexa temos a assimilação que lhe é indissociável, a qual possui três aspectos: funcional, generalizadora e recognitiva. Uma assimilação é funcional na medida em que sempre há a repetição dos esquemas de ação, bem como da atividade reflexa; é generalizadora na medida em que existe uma incorporação cada vez maior de objetos ao esquema reflexo ou de ação; e, por fim, é recognitiva na medida em que há a diferenciação das atividades reflexas que assimila os dados do meio, o que num primeiro momento parece ser contraditório com a assimilação generalizadora, mas, na realidade marca um progresso sobre essa última.

Do nascimento às primeiras ações temos um prolongamento da atividade do sujeito. Por acomodação de suas estruturas o sujeito complexifica sua própria atividade, adquirindo após o exercício das atividades reflexas os primeiros hábitos, os quais a Epistemologia Genética denomina de reações circulares primárias. No prolongamento das reações circulares primárias, temos a assimilação recíproca dos esquemas de ação, que é a assimilação de um esquema de ação pelo outro, como no caso particular da visão e preensão, ou seja, quando a criança pega o que vê e traz aos olhos o que pega. Tais ações são denominadas de reações circulares secundárias, pois são composições de dois ou mais esquemas primários.

A complexificação do sistema de esquemas de ação da criança a capacita a exercer a pesquisa ativa, ou seja, diante de um problema apresentado pelo meio ela executa seus esquemas de ação até conseguir resolvê-lo. Tal é o caso, por exemplo, para a criança que intenta trazer para junto de si um bastão, mas estando em seu berço tem as barras do berço como empecilho para a passagem do bastão. Diante de tal problema, de forma ativa a criança varia as posições do bastão até que consegue fazê-lo passar pelas barras do berço.

A partir dessa fase de seu desenvolvimento, a criança complexifica ainda mais sua atividade, a ponto de aplicar os esquemas conhecidos a novas situações. Essa aplicação se dá pela mobilidade que os esquemas adquirem. Permitindo à criança coordenar, por assimilação recíproca, esquemas-meio e esquemas-fim. Nesse momento, a criança é capaz de remover obstáculos para que sua ação principal seja atingida. Por exemplo, temos que o observador apresenta um objeto novo à criança, esse deflagra seu esquema de preensão (deseja pegar o objeto), contudo o observador coloca um obstáculo, uma almofada, por exemplo, que interrompe tal ação-fim. Nesse momento, a criança utiliza-se de esquemas conhecidos para remover o obstáculo colocado entre ela e o objeto desejado. É somente, nesse nível da inteligência sensório-motora que Piaget afirma haver intencionalidade.

O processo de adaptação conduz à nova complexificação do sistema de esquemas de ação. A criança passa a aplicar novos meios às novas situações, não ficando limitada aos esquemas já adquiridos ela acomoda-os desagrupando-os e os reordenando, criando um novo esquema para dar conta do problema que o meio lhe apresentou. Junto a esse processo tem início a interiorização dos esquemas de ação, os quais em vez de serem executados um a um (como no exemplo do bastão citado acima) são agrupados internamente e a ação é executada de imediato, sem uma pesquisa ativa para se chegar ao resultado.

Vemos, então, que a inteligência, enquanto capacidade de aquisição de conhecimentos tem seu início antes da aquisição da linguagem, sendo construída a partir das estruturas biológicas hereditárias. O que nos leva à compreensão de que o Construtivismo não é um construir aleatório e solitário, muito pelo contrário. O professor tem participação ativa no processo, mesmo com crianças que nem falam ainda.

Compreendemos não haver uma proposta ou modelo pedagógico piagetiano, muito menos uma lista de regras a ser seguida para um melhor desempenho do educador frente à tarefa de cuidar e educar crianças.

Mas a proposta da Epistemologia Genética de Piaget, que fundamenta o Construtivismo, é a de compreendermos a inteligência como uma estrutura em construção. Uma estrutura dependente de suas relações com o meio para seu próprio desenvolvimento, mediante os processos de acomodação e assimilação das ações que o sujeito humano realiza no mundo. De forma que a estrutura própria da inteligência não é inata e nem determinada de fora para dentro garças às pressões do meio; mas se constrói por um processo de adaptação por assimilação do meio e acomodação a este.

Por ser dependente da ação, a inteligência não tem seu aparecimento única e exclusivamente com o advento da linguagem, mas é justamente a linguagem que surge com a complexificação do sistema de esquemas de ação que vêm sendo construídos desde o nascimento.

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