*Trabaho apresentado no VI Simpósio de Filosofia e Ciência – Universidade e Contemporaneidade: Produção do Conhecimento e Formação Profissional promovido pela FFC – UNESP – Campus Marília em 2005.

Introdução

Temos como propósito nessa comunicação apresentar algumas considerações sobre nosso estudo na área de Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva, principalmente nosso estudo sobre Sistêmica, Auto-Organização e Informação e a inter-relação existente entre essas áreas. Para isso iniciamos com a conceituação de Sistemas e o que os caracteriza, bem como da Auto-Organização e Informação, para apontarmos nas considerações finais a inter-relação existente, principalmente no fato de compreendermos a informação como motor propiciador da auto-organização secundária.

1. Sistemas

Consideramos sistema um conjunto não vazio de elementos que mantém relações entre si. Von Bertalanffy corrobora com essa definição ao apresentar que um sistema é conhecido não somente pela soma de todas as características dos elementos que o compõem, mas também das relações que estes elementos têm entre si, dessa forma não é nada estranho encontrar um sistema onde o todo seja maior — ou mesmo menor — que a soma de suas partes.
O conhecimento da totalidade dos elementos de um sistema e de todas as relações envolvidas entre eles pode nos dar, a partir da análise do comportamento de todo o conjunto, o comportamento do sistema.

Diante dessa definição de sistema, nos colocamos as seguintes perguntas: o que são elementos? E o que são relações? Pessoa Jr. nos auxilia na elucidação dessas questões ao afirmar que um elemento é uma entidade primitiva que a cada instante está em um dentre vários estados possíveis ou, colocado de outra forma, possui um dentre vários atributos possíveis. Já as relações são definidas, por Pessoa Jr., como sendo as alterações de estado dos elementos condicionadas, ou condicionando, as alterações de estado de outro elemento no mesmo instante de tempo ou num instante posterior.

Essas relações podem ser exclusivas entre os elementos do sistema, a isso chamamos de sistema fechado, pois implica em que o sistema não mantém nenhum tipo de relação com o ambiente externo a ele. Ou podemos ter um sistema aberto, onde os elementos mantêm relações entre si como, também, relações com o ambiente onde está situado.

Tais definições, de elementos e relações, são importantes, pois para a Teoria Geral dos Sistemas, um sistema é caracterizado por sua estrutura ou organização e não pela identidade somatória de seus elementos.

2. Auto-Organização

Uma das características fundamentais de um sistema é a condicionalidade de relação entre seus elementos. Como definimos acima, uma relação entre dois elementos está no fato da alteração de estado de um dos elementos condicionar ou ser condicionada pela alteração do outro. Segundo Ashby, essa condicionalidade é a principal característica da organização de um sistema.

Entretanto, para os propósitos da presente comunicação, o conceito fundamental referente à organização do qual necessitamos é o de auto-organização. Ou seja, a possibilidade de novas formas de organização surgirem sem que haja um agente catalisador do processo.

Segundo Debrun, a auto-organização é um processo que se dá a partir do encontro de elementos distintos, sem vinculação causal anterior e, principalmente, sem uma interação supervisionada por qualquer dos elementos.

Essa definição de Debrun envolve duas modalidades de auto-organização. A primeira modalidade, chamada de Auto-Organização Primária, se dá na interação não-supervisionada de elementos distintos, que não possuíam nenhuma espécie de relação causal anterior e que, ao se encontrarem, podem desencadear uma dinâmica geradora de padrões simples e instáveis.

A segunda modalidade é a Auto-Organização Secundária, que compreende a possibilidade de um sistema, atuando de forma autônoma sobre si mesmo, passar de um estado de menor complexidade para um estado maior de complexidade. É o que Debrun, chama de complexificação. Assim, temos que a auto-organização secundária, ocorre em sistemas já organizados que buscam uma complexificação maior de suas relações.

3.A informação numa perspectiva não-antropomórfica

O conceito de informação é um tanto controverso. Desde seu significado de notícia, novidade ou dados até à possibilidade de uma mensagem enviada por diversas vias, sejam elas materiais ou imateriais, tais como cartas, telegramas, telefone, sinais de rádio etc.

Contudo, tais usos manifestam uma compreensão antropomórfica do termo, entendido como mensagem lingüística, significativa e inédita (para o receptor), transmitida entre seres humanos. Esta compreensão antropomórfica do conceito de informação nos leva a três características primordiais, a saber: linguagem simbólica humana, significado e novidade ou ineditismo.

No intuito de buscarmos uma compreensão não-antropomórfica da informação, afirmamos, junto com Shaeffer em sua interpretação de Stonier, que a informação é genuinamente um elemento ontológico, juntamente com a energia e a matéria. Assim, segundo Shaeffer, Stonier compreende a informação como propriedade fundamental do universo, buscando fundamentação para sua tese em Aristóteles que propunha a ordem como parte integrante da realidade. A compreensão de Aristóteles, que implica dizer que a ordem é parte integrante da realidade, pode ser apreendida de seu escrito De Anima, onde explica a natureza da vida com base em sua doutrina metafísica da natureza geral das coisas.

Um segundo passo em direção a um conceito não-antropomórfico de informação é uma derivação do primeiro. O teórico Zeman nos auxilia nesse segundo passo ao apresentar a informação, a partir de sua origem etimológica, como a medida de organização de um sistema. Nessa compreensão a informação se mantém, mesmo quando não utilizada por algum sistema diferente do sistema fonte de informação, como padrão organizacional dos sistemas.

Essa concepção de medida quantitativa nos leva para o terceiro passo em direção à desantropomorfização da noção de informação, a saber: a informação enquanto negaentropia.

Para compreendermos esse terceiro passo, temos que recorrer à Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver. Estes apresentam, já em seu primeiro capítulo, a noção da informação enquanto a medida da liberdade de escolha entre as mensagens prováveis. Pois, ao se escolher uma mensagem, entre as prováveis, a mensagem escolhida transporta unidade de informação, as outras não.

Essa unidade de informação transportada por uma mensagem é uma decisão entre duas alternativas, por exemplo, animal e não-animal. Assim, com duas perguntas é possível decidir-se por uma em quatro possibilidades, do mesmo modo que com três é possível decidir-se por uma em oito possibilidades, o que nos leva à conclusão de que o logaritmo de base dois das possíveis decisões pode ser usado como medida da informação. Assim, se temos duas possibilidades de mensagem, a unidade de informação transportada é log2 4 = 2, caso tenhamos três possibilidades de mensagem, então a unidade de informação transportada será de log2 8 = 3, e assim sucessivamente.

Tal cálculo é semelhante ao da entropia, e Shannon e Weaver estão cientes disso. Contudo a entropia é o grau de desordem de um sistema, e se temos que, na Teoria Matemática da Comunicação, a medida da unidade de informação é correspondente à medida de entropia de um sistema, então temos uma contradição aqui, pois no segundo passo afirmamos que a informação é a medida de ordem de um sistema, e aqui estamos apontando para a informação como um correlato à medida de desordem de um sistema. Como resolver essa contradição?

Como proposta de solução dessa contradição, assumimos a posição de Pereira Jr. e Gonzales. Primeiramente devemos compreender que existem dois níveis de análise. O primeiro foca somente a fonte de informação, sendo que quanto mais organizada menor será sua medida de unidade de informação. O segundo propõe uma correlação entre o sistema fonte de informação e o sistema receptor da informação, ou seja, a correlação entre dois sistemas. Caso essa correlação seja inexistente, i. e., igual a zero, não haverá transmissão de informação; caso seja maior que zero, menor ou igual a um, ocorrerá a transmissão de informação. Solucionando, assim, a contradição que aparentemente se nos apresentava.

4.Considerações Finais: A informação como motor da auto-organização secundária

Num primeiro momento, analisamos e definimos um sistema, que basicamente é a interpretação do todo não apenas pela somatória da identidade de suas partes, mas pelo complexo formado por suas partes e as relações por elas condicionadas. Tal complexo é matematicamente descrito por um conjunto de equações de múltiplas variáveis com forte interdependência, ou seja, que não tem solução simples por isolamento das variáveis. Rapoport denomina esse tipo de sistema de complexidade organizada, cujo organismo vivo é um exemplo evidente.

Em seguida, trabalhamos o conceito de auto-organização como o processo iniciado pelo encontro de elementos realmente distintos, sem ingerência de uma instância controladora, que dará forma a um novo sistema ou elevará a complexidade de um sistema já existente.

Apresentamos o conceito de informação numa perspectiva não-antropomórfica, a partir da Teoria Matemática da Comunicação, como medida de organização, ou negaentropia, de um sistema. Assim definido, o conceito de informação é aplicável à análise de todos os fenômenos nos quais existe comportamento organizado e especificamente dirigido para um objetivo.

A partir das conceitualizações efetuadas argumentamos com o objetivo de levar à compreensão de que a informação é o motor que dá início ao processo de complexificação de um sistema, ou seja, é a informação que propicia a um sistema sua passagem de uma complexidade menor para uma complexidade maior, sem gerenciar tal processo.

Para tanto, devemos lembrar que a Segunda Leia da Termodinâmica nos ensina que todo sistema físico que for isolado de seu meio tende a ter sua entropia maximizada, ou seja, um sistema fechado terá uma redução de sua energia livre, i. e., a energia de um sistema que pode realizar algum trabalho no ambiente; e aumento de sua energia térmica incapaz de realizar trabalho, em outras palavras o sistema tende a afastar-se de uma situação mais organizada para uma situação desorganizada/caótica.

Temos aqui um impasse, pois buscamos argumentar sobre o fato da informação ser o motor que inicia o processo de ampliação da organização de um sistema e a Segunda Lei da Termodinâmica, mostra que a natureza de um sistema é tender justamente para a sua total desorganização. Como responder a esse impasse?

Devemos, então ressaltar que a Segunda Lei é referente a sistemas isolados, ou seja, sistemas fechados que não mantém nenhuma relação com o meio. Em sistemas abertos, como mencionado, há uma relação com o meio. Essa relação propicia uma troca com o meio, essa troca favorece o equilíbrio do sistema impedindo, assim, o aumento de sua entropia. Como diz Rapoport, em relação aos seres vivos, é o alimento ingerido que serve não apenas como fonte de energia, mas principalmente, como fonte de energia livre, compensando o aumento da entropia.

Podemos concluir com Rapoport e com o que vimos discorrendo até aqui sobre a informação como medida da negaentropia, o aumento da entropia destrói a informação e, conseqüentemente, o inverso também é verdadeiro, ou seja, que a informação reduz a entropia.

Enquanto elemento redutor da entropia, a informação propicia não somente a manutenção do equilíbrio do sistema, mas também a possibilidade de aumentar sua complexidade organizada, ou seja, a informação não apenas supre os organismos vivos da energia utilizada nos processos vitais, mas aumenta a complexidade organizada que os caracteriza como sistemas vivos.

Logo, a informação fornecida pelo meio é processada pelo sistema que pode dar início ao processo de auto-organização secundária, ou seja, o processo de aumento da complexificação de um sistema. A informação é responsável pelo “start” do processo, contudo não é reguladora e nem supervisora do mesmo, pois o processo é de auto-organização, não possuindo um centro regulador.

Referência Bibliográfica

ASHBY, W. R. Principles of the Self-Organizing System. in Von FOERSTER, H. & ZOPF, G. W. (orgs.), Self-Organizing Systems. Londrines:Pergamon, 1962.

BROENS, M. C. & GONZALES, M. E. Q., Information, Life and Evolutionary Robots: a systemic approach. Não Publicado, s/d.

D’OTTAVIANO, I. M. L. & BRESCIANI FILHO, E. Conceitos Básicos de Sistêmica. in D’OTTAVIANO I. M. L. & GONZALES, M. E. Q (orgs). Auto-Organização – Estudos Interdisciplinares. Campinas:UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 2000. (Coleção CLE, volume 30).

DEBRUN, M. A Idéia de Auto-Organização. in DEBRUN, M. et. all, (orgs.) Auto-Organização Estudos Interdisciplinares. Campinas:UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1996. (Coleção CLE, volume 18).

PEREIRA JR., A. & GONZALES, M. E. Q., Informação, Organização e Linguagem. in ÉVORA, F. R. R., Espaço Tempo. Campinas:UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1995.

PEREIRA Jr., et. all. Auto-Organização na Biologia: Nível Ontogenético. In DEBRUN, M. et. all, (org.) Auto-Organização Estudos Interdisciplinares. Campinas:UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1996.

PESSOA JR., O. Medidas Sistêmicas e Organização. in DEBRUN, M. et. all. (orgs.). Auto-Organização – Estudos Interdisciplinares. Campinas:UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 2000. (Coleção CLE, volume 18).

RAPOPORT, A. Aspectos matemáticos da análise geral dos sistemas. in VON BERTALLANFY, et. all. Teoria dos Sistemas. Tradução de Maria da Graça Lustosa Becskeházy, Rio de Janeiro:FGV – Instituto de Documentação Editora Fundação Getúlio Vargas, 1976.

SCHAFFER, R., Informação e Naturalismo Esclarecido: O “Realismo Informacional”. in GONZALES, M. E. Q. et all (org.). Encontro com as Ciências Cognitivas. Marília:Unesp-Marília-Publicações São Paulo:Cultura Acadêmica, 2001.

SHANNON, C. E. & WEAVER, W. The Mathematical Theory of Communication. Urbana, Chicaco, London:University of Illinois Press, 1949.

VON BERTALANFFY, L. Teoria Geral dos Sistemas. Tradução de Franscisco M. Guimarães. Petrópolis:Vozes, 1973.

ZEMAN, J. Significado Filosófico da Noção de Informação. in ZEMAN, j., et. all., O Conceito de Informação na Ciência Contemporânea. Tradução de Maria Helena Kühner, Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1970.

Olá,

Acontecerá de 8 à 11 de setembro de 2009 o I Colóquio Internacional de Psicologia e Epistemologia Genéticas: Atualidades da Obra de Jean Piaget, como o site do evento nos diz, o mesmo tem por objetivo:

  1. Promover o encontro de pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo da obra de Jean Piaget e de questões atuais abordadas pela Psicologia e Epistemologia Genéticas.
  2. Promover o encontro de grupos de pesquisa de Psicologia e Epistemologia Genéticas no Brasil.site
  3. Promover a aproximação de pesquisadores brasileiros com pesquisadores estrangeiros (latino-americanos, europeus e americanos) sobre questões e pesquisas de Psicologia e Epistemologia Genéticas.
  4. Promover a discussão e divulgação dos trabalhos do Grupo de Estudo e Pesquisa de Epistemologia Genética e Educação – GEPEGE, da UNESP – Campus de Marília.

Será um dos mais importantes momentos de reunião de pesquisadores e estudiosos da obra de Jean Piaget.

Acontecerá de 29/06 à 02/07/2009 a segunda edição do Congresso Brasileiro de Educação com a temática: “Formação docente e universalização do ensino: proposições para o desenvolvimento humano” e tem como objetivo, como o site do evento diz:

proporcionar aos pesquisadores e profissionais da educação espaço para socialização de pesquisas e trocas de experiências sobre a formação de professores na perspectiva de uma educação para todos.

É mais uma grande oportunidade de troca de experiências entre os profissionais envolvidos com a Educação.

Aqueles que desejarem inscrever trabalhos poderão ver mais informações em http://www2.fc.unesp.br/cbe/trabalhos.htm não esquecendo que os mesmos devem ser submetidos até dia 16/05/2009.

Aproveitando ao máximo as oportunidades que surgem, estou, no momento, preparando-me para novo concurso.

É para a cadeira de Filosofia da Educação no Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Campus de Amargosa-BA.

Os pontos são bem diversificados, mas todos relativos à Filosofia da Educação, são eles:

  1. A Paidéia e a cultura grega
  2. A Filosofia da Educação em Aristóteles.
  3. A educação no período medieval.
  4. A educação no período iluminista.
  5. Filosofia da Educação socialista.
  6. Rousseau e a educação
  7. A Filosofia da Educação idealista.
  8. A Filosofia da Educação no Brasil.
  9. Afrodescendência e a Filosofia da Educação.
  10. Filosofia da Educação e as Novas Tecnologias da Educação

O que me traz mais preocupação é o ponto 9, pois não estou encontrando material necessário para aprofundamento da temática.

Mas, como sempre, desafios são sempre bem vindos. Não só estimulam como promovem a criação de novos esquemas por meio da acomodação dos existentes (e dá-lhe Piaget heehe)!!

Vamos que vamos, a questão é estudar e preparar o material para que nada nos pegue de surpresa.